O escritor empírico realiza suas pesquisas
baseando-se nas suas experiências e no relato das pessoas, não havendo,
portanto, um estudo profundo, científico; daí às vezes, não consiga alcançar o apogeu
da sua essência. Como sou daqueles que ainda acredita no homem, concordo que: “o maior espetáculo para o homem, ainda é
o próprio homem”, por isso, acredito e boto fé nas pessoas.
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| Foto de Alessandro Abdalla |
Situada no Ribeirão Borá e distante quatro
quilômetros da cidade de Sacramento, (para uns e cinco quilômetros para
outros), a Usina Cajuru, foi inaugurada em 1913. Durante mais de meio século
forneceu energia elétrica para Sacramento e Conquista. Foi também de 1913 a 1938, geradora de
energia para a sustentação do bonde elétrico que ligava a cidade de Sacramento à
estação férrea do Cipó, aproximadamente 15 quilômetros da
cidade de Sacramento. Foi construída por engenheiros/empreiteiros alemães da
firma Bomberg & Cia. Cujo material para o seu funcionamento foi importado
da Alemanha. A Usina Cajuru forneceu energia para Sacramento até 1964 e até
1970, forneceu energia para a Vila Simpson. Quanto a Conquista, a desativação
do fornecimento ocorreu no recuado ano de 1960, pois a cidade conseguiu
fornecimento de energia elétrica da CEMIG, como veremos adiante.
Diante do exposto, traçarei aqui um breve
relato entre a Usina Hidrelétrica Cajuru e a Cidade de Conquista, cujo
resultado foi fruto de entrevistas que realizei com quatro moradores de
Conquista, os quais são testemunhas autênticas e vivas deste acontecimento.
Inicialmente, gostaria de afirmar a
veracidade e coincidências das narrativas a mim reveladas pelos entrevistados
em convescote descontraído e cordial.
Segundo relato da crônica local, a Usina
Cajuru foi fruto de uma iniciativa pioneira do povo sacramentano. Entrou em
atividade a partir de 1913, na ocasião, foi estabelecida uma parceria no
sistema de cotas entre os dois municípios irmãos e limítrofes: Sacramento, e a
então recém emancipada Conquista, sendo que a Sacramento pertencia 60% das cotas
e a Conquista, logicamente o restante, ou seja, 40%.
O vigor dos 220 volts era fato de admiração
de todos. Tudo isso sob os cuidados técnicos do profissional “Beviláqua”. A
potência era tanta, que em Conquista houve até um fatídico caso, em que faleceu
eletrocutado, o Sr. Sebastião Canassa, filho do Sr. Orestes Canassa.
Tudo corria muito bem nas primeiras décadas,
mesmo com a concorrência de fornecimento de parte da energia para locomoção dos
“Bondes de Sacramento”. Os anos se passaram, o Brasil começava a se
industrializar, em nossa região não foi diferente: fábricas de sabão, de
guaraná, máquinas de beneficiar arroz e café, bares, padarias careciam e
demandavam maior consumo da eletricidade. Foi daí que surgiu a expressão “luz
tomate” tão conhecida e perpetuada no fadário conquistense. Ocorria que nos
horários de “pique”, a voltagem caía substancialmente, ocasionando além do
fenômeno já conhecido “luz tomate”, a impossibilidade da utilização e ligação
dos motores mais potentes.
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| Conquista, Minas Gerais |
A carência de uma energia elétrica mais potente
despertou no povo conquistense, o sentimento de conquistarem independência no
abastecimento de energia da cidade, que resolvesse os problemas que vinham
acontecendo há anos. Aconteceu que o povo se aglutinou, fizeram várias reuniões
e decidiram interceder juntos aos políticos da época, que tinham afinidades com
a cidade. Foi então, que surgiram dois personagens importantes para que
Conquista lograsse êxito no seu intento: o deputado estadual Renato Azeredo,
que juntamente com Alfredo Campos tinham ligações afetivas com o município.
Outro personagem que muito influenciou nas decisões políticas favoráveis a
Conquista foi o deputado federal Maurício de Andrade, primo em primeiro grau do
influente fazendeiro conquistense Dr. Vanderlei Andrade. Estes atendendo
chamamento e apelo do então refeito prefeito José Julião Tângari (1955 a 1958), arregimentaram
seus préstimos junto ao governo estadual e principalmente, junto a CEMIG –
Companhia Energéticas de Minas.
Cumpridas todas as prerrogativas, percorridos
todos os caminhos, a CEMIG exigiu que os conquistenses adquirissem ações que
formasse um montante considerável de capital, o qual serviria de contra partida
e ajudaria nas despesas de implantação do empreendimento. E assim aconteceu,
mais uma vez, o povo conquistense deu ares de desprendimento, sentimento
patriótico e nativista, adquirindo ações Preferenciais e Nominativas da
Companhia Energética de Minas Gerais - CEMIG.
Um registro: hoje as referidas ações se encontram desvalorizadas, em
consequência de correções inadequadas, bem como, fruto dos sucessivos planos
econômicos mirabolantes que permearam as últimas décadas.
Certo é que no ano de 1960, na
gestão do prefeito guaximense Lourenço Zaia, (1958 a 1960), a CEMIG
inaugurava a nova rede de energia elétrica em Conquista, quando governava Minas
Gerais, o Dr. José Francisco Bias Fortes.
Curiosamente, até hoje Conquista
mantém certa dependência de Sacramento no campo da energia elétrica. É que, por
não possuir Estação própria de energia, depende exclusivamente da Estação que
abastece Sacramento, cuja energia chega até Conquista através de linha de
transmissão. Em consequência das intempéries, constantemente desarma, causando
apagões e demora do reabastecimento, pois não há um ponto de pronto atendimento
da operadora CEMIG na cidade. Curiosamente o município de Conquista desde 1998,
tornou-se exportador de energia elétrica através dos 210 megawatts (MW) gerados pela Usina Hidrelétrica de Igarapava,
geradora que ocupa e abrange 28 quilômetros de margem lacustre do território
conquistense.
Finalizando, essas são considerações que
modestamente apresento por ocasião da mesa redonda presidida pela prefeita de
Conquista, professora Véra Lúcia Guardieiro, sobre os 100 anos dos “Bondes de
Sacramento” no V Festival de Inverno do Parque Náutico de Jaguara, em
08.06.2013.
Firmino Libório Leal, jornalista e escritor,
Editor do Jornal O Conquistense.
Entrevistados:
Alberto Bragato, 93 anos
comerciante aposentado, que por várias décadas manteve estabelecimento
comercial, “Bar” defronte a Estação da Mogiana, em Conquista;
João Vasco Fuquizatto,
79 anos, contabilista e produtor rural aposentado;
João Sampaio Anacleto,
76 anos, odontólogo e professor de história, aposentado;
Felipe Caramóri, 84
anos, advogado, professor e serventuário da Justiça aposentado.
Bibliografia:
Usina Hidrelétrica de Igarapava
Prefeitura Municipal de Conquista
Câmara Municipal de Conquista
Prefeitura Municipal de Sacramento
Livro: os Bondes de Sacramento


