segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Homenagem a Otávio Cattâni: um exímio contador de causos

O exercício da imprensa no interior do Brasil, certamente não propicia retorno financeiro satisfatório, porém, nos induz e às vezes nos contempla momentos e passagens inusitadas que certamente, só aqui, nas pequenas cidades, acontecem. São situações em que estamos sujeitos a presenciá-las a qualquer momento, sem nenhum aviso prévio.

Certa ocasião li no programa músico-cultural, que a cerca de 13 anos modestamente apresento aos domingos pela Rádio Dinâmica FM 105,9 de Conquista, Minas Gerais, uma crônica intitulada “O Encontro Inesperado” de autoria do guaximense Otávio Cattâni. A repercussão foi imensa, tanto que, tive que repetir a façanha vários domingos seguidos. Daí em diante, iniciei uma busca incessante à procura de Otávio Cattâni, para que o mesmo entrasse para rol dos colunistas do jornal “O Conquistense”, surgia então, uma grande amizade e com certeza, ele trousse mais brilhantismo e alegria aos nossos leitores.

O legado de Otávio Cattâni dispensa apresentação, vejamos o que diz o escritor Samir Cecílio sobre as proezas de Cattâni, contidas no artigo “A Contas dos Casos” publicado na imprensa uberabense: "Era pessoa que tinha espontaneidade da prosa. Estivesse onde estivesse, numa festa ou num velório, agregava em torno de si um auditório atento. Se o ambiente era de festa ou de tristeza não importava, ele com sua palavra fácil dava colorido e mais alegria ao acontecimento". Otávio somente se tornava casmurro quando o assunto era a viuvez, pois lembrava de seu único e grande amor, sua dileta e saudosa esposa Lurdinha, que falecera há anos.

Filho de Felipe Catânni e Angelina Cattâni, Otavio Cattâni nasceu em Guaxima, distrito de Conquista Minas Gerais, em 16 de dezembro de 1925, onde morou até os 18 anos, indo depois morar em São Paulo e posteriormente em Belo Horizonte, Uberlândia e por último em Uberaba.

Em 1955 casou-se com Maria de Lourdes Carvalho Mendonça, (Lurdinha). Deste enlace, deste sublime amor, tiveram uma família maravilhosa composta de dois filhos: Felipe Cattâni Neto e Marcelo Mendonça Cattâni. Os netos: Leonardo Frange S. Cattâni, Tiago Frange S. Cattâni, Diego Ciulada Cattâni e Felipe Ciulada Cattâni. As noras Alexandra Frange S. Cattâni e Eliana Ciulada Cattâni e o bisneto Davi Cattâni.

Otávio faleceu de mal súbito dia 27 de dezembro passado em Aracajú, onde foi passar o Natal na residência do filho Felipe Cattâni Neto. Contava então, com 85 anos de idade. Pai de família honrado, exemplar, amoroso, ligado às suas origens, grande observador da natureza humana, apegado às tradições e à família. Assim era Otávio Catânni.

Minha conivência com Otávio Cattâni foi breve, porém, seu falecimento deixou uma grande lacuna, um grande vazio, aflorando os laços indestrutíveis de estima e admiração que por ele mantinha. Que Deus o abençoe amigo. Daqui, continuaremos a publicar seus escritos...

Crônica do livro “Estação Conquista” que se encontra no prelo.

Tributo ao Dr. Hadel Wazir: médico e cidadão do mundo

Tenho a difícil missão de dissertar sobre a ilustre pessoa do Hadel Wazir falecido recentemente. Pois bem: no final do ano de 2002, recebi uma ligação telefônica propondo que eu recebesse na repartição pública onde trabalho, o Dr. Hadel Wazir. Surpreso com a proposta, mas feliz, disse que sim. O motivo do convescote seria um intercâmbio cultural, onde, o cerne do encontro, seria uma breve biografia da ilustre conquistense Ginette Stocco Emmer, ou melhor, Janete Clair, já que o mesmo foi contemporâneo e amigo da renomada novelista. Refeito, entendi o óbvio: Dr. Hadel queria que eu ampliasse o ciclo de publicações sobre Janete Clair, por considerar que o mais relevante a ser levado a público sobre ela, ainda não tinha sido feito.

Ao longo dos anos que sucederam o encontro, Dr. Hadel e eu, a cada visita que ele fazia a Conquista, nos encontrávamos no seu local predileto de refúgio e meditação: a centenária Estação Ferroviária de Conquista. Ali, naquele prédio de copiar lateral, nas fagueiras tardes conquistenses, mantínhamos longas conversas sobre fatos e acontecimentos ligados a Conquista, a sua gente.

Dr. Hadel e eu nos tornamos próximos e amigos. Dele recebi carinho, atenção e cuidados, nos tornarmos confidentes. Até mesmo a deferência de ser convidado a visitá-lo em São Paulo. Em detrimento dessa admiração mútua, chegou ao ponto de visitar o Parque Nacional da Serra da Capivara que fica localizado no meu estado de origem, o Piauí.

Era médico e cidadão do mundo. Conhecia muitos países, falava fluentemente vários idiomas. Por onde andou, divulgou Conquista, pois tinha amor arraigado a sua terra natal. A propósito: no Natal de 1970, mais precisamente em 26 de dezembro daquele ano, aconteceu um desastre de grandes proporções com o trem da Mogiana na localidade Engenheiro Lisboa, com um saldo de 21 mortos e 37 feridos. A maioria dos feridos foram socorridos e atendidos na Santa Casa de Misericórdia de Conquista, pelo médico Dr. Hadel Wazir que se encontrava de férias na cidade. Na oportunidade, o mesmo convocou o então jovem odontologista João Sampaio Anacleto, e juntos, num esforço sobre humano, atenderam a todos. Em consequência do seu desprendimento, altruísmo e competência médica, a Companhia Mogiana de Ferrovias e Navegação lhe enviou missiva de agradecimento e menção pelo socorro prestado aos seus usuários. Inclusive, propondo o ressarcimento pelos serviços médicos prestados. Tal foi a surpresa da Companhia Mogiana ao receber a resposta do Dr. Hadel Wazir: “não tenho nada a receber, apenas socorri meus irmãos conquistenses”.

Dr. Hadel Wazir nasceu em Conquista em 26 de junho de 1926. Era filho de Antônio Wazir e Nádia Wazir. Em São Paulo, desempenhou suas atividades profissionais como médico e empresário do setor, deixou um vasto círculo de amizade e muitos admiradores. Tinha o hábito de passar o Natal em Conquista. E foi justamente vindo de São Paulo para Conquista que veio a falecer de mal súbito dia 23 de dezembro passado, aos 84 anos de idade. Na ocasião, viajava de ônibus, no afã de rever os amigos, parentes e Conquista cidade que amou intensamente.

Além da inteligência, a lhaneza no trato, a firmeza nas convicções, dele ficou-me a fidalguia do bom conquistense. Pareceu-me sempre um homem dedicado, justo e bom. Isto justifica uma vida bem vivida. Que Deus o tenha bom amigo.

Crônica do livro “Estação Conquista” que se encontra no prelo.